Cantiga de Sonhar

Ladrilhar… Brilho, olhar.

Nessa rua tinha um bosque,
que chamava solidão.

Por entre selva fechada,
um sentimento doído perpetua.
Aquele não compartilhável,
que se sente só, por estar só.

Lá habita meu anjo da esperança.
Esperando que por entre selva fechada
nasça um botão a florescer,
e que esse botão desabroche em meu coração.

Ah! Esse anjo da esperança,
que há tanto levou meu coração.
Que disfarça o sentimento doído,
distorce o que é fácil e o que é fato.
Me beija com beijos soprados do mais puro consolo.

Que diz que me quer bem.

E esse bosque sombrio, inerte,
habita meu anjo da esperança,
no aguardo de uma recíproca de amor.

Sim, ele diz que me quer bem.
E o que se faz aqui, se age com assim semelhança.
Me acusando de precursora do ato.
Do roubo.
Do seu coração.

Ladrilhar… Brilho, olhar.
Essa rua não é minha,
como um dia imaginei.
Mas no bosque da esperança,
o meu anjo esperei.

E por entre selva fechada,
sentimento doído que não se partilhava,
se partilha agora,
de verso em verso,
por uma cantiga de sonhar.

Marina Nastari de Almeida

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Eventualidades

Às vezes a gente se esquece.
Olhares se esquecem,
Sorrisos me remetem, mas se esquecem.
Palavras mais acomodam do que confortam.
O mundo é disforme, mas só nos reflete.

É que às vezes a gente se esquece
que o mundo de fato só nos reflete.

Às vezes da vida se esquece.
Às vezes nos sentimos inertes,
Os sonhos são inertes.
As palavras, névoa que esvai pelos ares.
A percepção do viver é falha, um tanto esquecida.

Às vezes a gente chega ao ápice do esquecimento.
Os porquês se esquecem,
Os “para quem” também.

Mas a vida, de fato, é falha, cheia de esquecimentos.
Mas às vezes a gente se olha no espelho e já não se lembra mais de quem é.

Por fim e para o bem, às vezes a gente se lembra.
De fato, é preciso esquecer para se lembrar.
Mas reparei que lembrar é muito melhor do que nunca esquecer.

Estou de volta.
Me lembrei o que é viver.

 

Marina Nastari de Almeida

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Um Mal Atendido

Em mais um dia, em mais um tempo,
meu tempo é próximo.
Não há contagem, arritmia
sem sintonia.

Durmo para acordar em mais um dia
feito da mais mesmice da vida alheia.
Sou atendente fria de um mundo mudo
Que se faz da vontade de não falar.
Ou será eu aquela a não escutar?

Que de desfavorecimentos se faz composto.
Não há interesse em melhorar
o que não me beneficiar.

Sou atendente errada sem me importar.
Sou de repente aquela a não ajudar.

De um modo ou outro,
meu tempo é pouco.
Um descompasso.
Um pisco e passa.

Seja por sina,
seja por sorte.
Vanglória à morte,
que ruma a um norte
irremediável.

O não amável está aceitável.

Durmo para acordar em mais um dia,
que feito da mais mesmice da vida alheia,
faz de mim gente a mais a não agregar.

Sou de repente aquela que pode mudar.

São tantas gentes e de caso a caso,
vivo em descaso com a vida próxima.
Minha fala é “Próximo” sem eu me importar,
e agora é hora de eu me deitar.

Sou de repente aquela que pode mudar.

Marina Nastari de Almeida

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Chove Choro

Choveu como nunca chovera.
Com força para devastar,
choveu sem parar.

A chuva cessou.
Calmaria.
Agora tudo é calmaria.

Marina Nastari de Almeida

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O Criado Mudo

O silêncio é feito.
É fato.

Não há ninguém que sirva de subterfúgio para o agora.
Não há desculpa.
Só há vontade.

Já é tarde,
mas meu criado mudo está presente.
Está contido.

Meu criado mudo contém o que preciso.
Meu criado, surdo, só ouve o quarto escuro.

Meu criado cega todos os meus sentidos.
Só posso sentir que quero.

Meu criado, sábio, me faz saber que quero.
O que quero.
Sei bem.
Te quero.

Meu criado mudo contém o que preciso.
Meu criado lúdico contem o meu presente.
Meu presente é seu.
Meu presente é agora.
Te quero, agora.

Meu criado ilude fazendo que é para sempre.
Hoje é sempre.
O amanhã é tarde.

Já é tarde,
mas meu criado mudo me diz que está na hora.
É agora.

Emudece.
Amanhece.
Acontece.

Feliz sou eu que ouvi o som do silêncio.
Meu criado mudo contem o meu sorriso.

Hoje é sempre.
O amanhã é lembrança.

Marina Nastari de Almeida

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Ultra Palanfrório

Que me falhem as palavras,
que delas eu tenho medo.
Porque me entregam de mãos ao vento,
que saem de mim de imediato,
e no ato subitâneo me remetem ao arrependimento
por minha pressa, implicação.

Desfaço-me então delas,
porque são traiçoeiras, amargas, impunes.
Porque transformam o florescer no falecer,
se estes forem meus intuitos.

Porque de mau uso ou de bom grado,
impingem a mente atônita,
consentem a um falso entendimento.

Esta mente fraca, mundana, fácil
se adequa à palavra nova,
que de nova, torna-se pompa.
De pomposa, de valia grande.

Ah! As palavras!
Estas minhas tão supérfluas…
E que sentido há no seu uso,
se não para próprio benefício?

São por isso inventadas,
em uma vomitação de conteúdo
que de fato, e de falhas,
figuram uma projeção de pensamentos
 impeditivos de representação idêntica.

De fato, minhas palavras falham, eu falho.
Minhas palavras faltam,
e eu tomo rumo ao silêncio.

Faço-me então do silêncio.
E tudo me falta.

Então são as palavras que clamo.
E no erro, as uso.
Porque disso me faço.

Palavriando, só me faço palavriando.

Álvaro Gomes

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O desistente

Tiro meus calçados cansados.
Meus olhos estão cansados.
A sala está tão bonita,
mas meus olhos estão cansados demais para apreciá-la.

Hoje, então, eu desisti.
A força me faltou, o instinto do agir falhou.
Deixei me levar, deixei levar, deixei me levarem.

Leve. Estou mais leve, quase vazio.
A esperança que por hora me preenchia foi-se juntamente com o sopro do tempo, que antes interminável, findou-se.

O tempo me deixou tão cansado.
Estou tão cansado.
Estou cansado demais para sentir algo diferente do constrangimento.
Eu me envergonhei.

Hoje, então, eu vi os vitoriosos passarem à minha frente, por minha mente.
Eu não sou um deles.

Não sou nada, me sinto assim.
Agora lido com a minha desistência, com as minhas intermináveis reticências, uso devido à falta de qualquer explicação aceitável.

Estou só, comigo mesmo.
Eu desisti.

Álvaro Gomes

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