A praça em que todos me parecem felizes

P Gosto às vezes de pensar que sou invisível. Faço isso somente para poder ficar observando o comportamento de todos ao meu redor, sem que qualquer atuação minha implique em alguma conseqüência. Não, estes que observo são livres atuantes. Ou serão livros atuando?
R A mim me parece fácil brincar de ser invisível: como toda brincadeira que se preze, basta se acreditar, que se é daí por diante.
O Um dia ei de entender a essência da inocência, mas por hora me basta brincar de crer que ninguém pode me ver nesse instante.
C E só nesse instante, é claro. Porque ninguém almeja ser invisível, pelo menos não eternamente. Precisamos pelo contrário, ser vistos, estar à vista, nos mostrarmos, mostrarmos quem somos para quem quiser ver, e indo alem disso, para quem ao menos puder. Trata-se de algo necessário para construir nosso ego.
U Um dia ei de entender a essência da “egociência”, mas por hora me basta brincar de crer que eu sou criança, por hora inocente, por hora crescente, e por hora, sem necessidades exorbitantes de egocentrismo.
R De qualquer modo, cá estou invisível.  Entenda, você deste lado, que é invisível de corpo e alma. Minha consciência está por agora vazia, sem carregar toda a minha bagagem de historia, de conhecimentos agregados e do que mais que se queira.
A Entenda ainda que eu brincar de invisibilidade trata-se de uma forçada tentativa, porque estou desconsiderando vários fatores, como já mencionado antes.
S Sei que pareço um tanto burocrática, mas está em mim, (como vejo em muitos, ou em todos) viver da “burocracia da vida cotidiana” (ou do cotidiano da vida burocrática, não sei ao certo).  Além disso, não quero deixar margens para uma interpretação errônea de como se sucede meu experimento.
E E cá ainda estou invisível. Agora sim, não penso em nada. Sou o nada. Posso vivenciar tudo ao meu redor de forma nova.
U Havia uma praça. O clima era envolvente, quente. Não apenas em se tratando de altas temperaturas. Não, o calor podia ser visto. Parecia ser reflexo da aura daqueles que a habitavam. Na praça, todos se diferenciavam uns dos outros porque involuntariamente emanavam esta aura com cor. Cor própria. Cores como azul céu, amarelo esverdeado, violeta, coral, ameixa, rosa profundo, alizarin, abóbora, carmesim, damasco, turquesa, água-marinha, salmão, ametista, âmbar, ciano, creme, púrpura média…
M As cores expelidas por cada um, de maneira graciosa, misturavam-se em uma brincadeira de aquarela. Um sistema sensorial apurado reconheceria facilmente a ausência de qualquer sensação não prazerosa. Pelo contrário, o clima formado era um todo, que pairava sobre onde se olhasse, se entoava por onde se quisesse ouvir, se sentia e era vivido entre todos ali presentes.
A Se eu não fosse invisível, estaria num estado de completa ruborização. Senti vergonha ao me extasiar com esse todo. Para todos ali, não parecia ser nada além do natural vivido na praça. Mas para mim, era inexplicável. Não só senti vergonha por em tudo exaltar aquele Todo, mas por ter inveja, ao não me ver naquela praça.
P Os gestos, a meu ver, turvos, pouco importavam. Tanto fazia como um se portava com o outro, porque nada abalaria o clima perfeito. Como então, uma conseqüência, em meio a gestos turvos, todos me pareciam ser atenciosos, generosos, respeitosos. Pareciam ser estas, prioridades maiores, e juntas formarem condição essencial para se habitar aquela praça.
R Sob meu estado de vivência nova, me vi diante de um sentimento de extrema força coordenando o mecanismo da praça, e em um súbito estalo, pude compreender o que estava a vivenciar. Todos naquela praça me pareciam felizes. Diante da mais nova dedução, e dentro da minha invisibilidade, me mantive inerte, e pensante.
A Não havia explicação para aquilo. Eu somente ansiava prolongar este momento que definitivamente não havia explicação, mas parecia acolher cada corpo da praça, cada ponto do corpo.
Ç Sob minha condição de descarrego de experiências anteriores, essa era a melhor primeira experiência que eu podia vislumbrar e possuir, apesar de não ser minha. Era o necessário para se começar a viver, se continuar, ter o propósito de encontrar a minha própria praça.
A A minha brincadeira se findou. Eu estava no ponto da praça, e meu ônibus se aproximava.

 

Marina Nastari de Almeida

Esse post foi publicado em Devaneios.. Bookmark o link permanente.

Uma resposta para A praça em que todos me parecem felizes

  1. Dani disse:

    Eu simplesmente amo quando você escreve esses devaneios
    Esse especialmente está lindo… perfeita sinestesia *-*
    Beijos!

    PS: vou tentar essa experiencia, me tornar invisivel… hmmm… /-.-\ rs.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s