Monólogo de um espelho qualquer

“Espelho, espelho meu…” Espelho aqui sou eu. Espelha em mim seu “eu”.

Há quanto esperava para contar-lhe que queria partir.
Enfim vivi, sou espelho das vaidades humanas,
das vaidades insanas e humanas.

Mas agora, vou-me, porque não quero mais refletir.
“Sete anos de azar”, por assim dizer, eu lhe dei.

Se puder, que ela reflita sobre o que se refletiu em mim por tanto tempo.
Eu, que já a vi chorar, já a vi sorrir,
já a vi pentear seus cabelos extremamente penteados,
simplesmente por não querer sentir-se tão impotente em relação à vida.

Eu a vi menina dos olhos de espelho,
e no reflexo do seu olhar, me encontrei.
Eu não sou real, eu sei. Sou apenas um espelho qualquer.
Por fim não existo. Mas ela existiu.
E cada centelha de vida que ela refletiu em mim, tornou-me ela, tornou-me vivo.
Por fim, sou ela.

O meu pesar era encontrar em seus olhos a súplica de alguém que vive de solidão.
A súplica de alguém que em seu reflexo, pede desesperadamente por um outro “eu”
e não apenas pelo maravilhoso poder da reflexão da luz.

A sua mão em mim, que tanto pedia retribuição, ao me tocar, não me alcançava.
E o que se pode esperar de um espelho qualquer, afinal?
O quanto quis ser real, ser ela, para mudar o que ela quisesse mudar.

Então eu quebrei.
Ela me quebrou.
Ela viu que de mim, não sairia mais nada,
que por fim, eu era apenas um depósito de sentimentos
que iam muito além da vaidade que em mim se refletia.

Eu guardei cada palavra, cada sentimento dela, pois sou seu reflexo,
sou o reflexo da sua vida.
Mas não sou nada além disso.
Sou apenas lembranças.
Sou o passado, porque um milésimo de segundo atrás já é passado.

Ela quis o futuro, e isso eu nunca poderia lhe dar.
Então quebrei.
E era para ser assim, porque para mim, viver era refletir.
Para ela não.
Ela não pode viver apenas de reflexão.
Ela é real.
Eu não.

Deixo, então, a menina dos olhos de espelho viver.
E que ela saiba que não está só, por fim.
Ela tem seu reflexo guardado em mim.

Marina Nastari de Almeida

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4 respostas para Monólogo de um espelho qualquer

  1. Panda disse:

    Achei esse melhor que o primeiro *-*
    Bem,fez mais sentido pra mim,pelo menos
    bem pensado…

  2. Lobo disse:

    Lindo, lindo, lindo, lindo, lindo. Acho muito bonito, belo e perfeito esse seu texto, toda vez que eu leio eu sinto as palavras, todas elas fazendo sentido e se encaixando.

  3. estel disse:

    *o*
    faço minhas as palavras do Lobo ;D

  4. Dani disse:

    Este eu já conhecia, e claro é o mais marcante.
    É de uma sensibilidade sem tamanho. Amo de tão lindo.

    Parabens parabéns! :*

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